quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Segurança alimentar, mercados e a turbulência internacional

Combater a fome significa investir em produção, gerar emprego e reduzir pressões inflacionárias globais; não é tema lateral à agenda da crise. Essas ponderações são feitas por José Graziano da Silva, representante regional da FAO para América Latina e Caribe e diretor-geral eleito da instituição para 2012-2015. " Num momento em que a recuperação mundial caminha com as pernas trôpegas, a agenda da segurança alimentar contempla a urgência dos famintos e oferece um pedaço de chão firme do qual se ressente a humanidade." afirma Graziano. " Abaixo, a íntegra do artigo, intitulado Subtrair espaços à incerteza :

"A palavra incerteza comanda a agenda do nosso tempo, e tão cedo não perderá essa prerrogativa.

Ela reflete a disseminação de um estado de espírito trazido da crise financeira para a vida política e dela para o cotidiano, onde a volatilidade passou a ditar a tônica dos nossos dias. Revogá-la pressupõe a sedimentação progressiva de zonas de segurança que permitam convergir expectativas por meio do planejamento democrático de um futuro mais sustentável.

A segurança alimentar é um dos elos desse cinturão regenerador capaz de devolver à sociedade o comando do seu destino.

Num momento em que a recuperação mundial caminha com as pernas trôpegas, a agenda da segurança alimentar contempla a urgência dos famintos e oferece um pedaço de chão firme do qual se ressente a humanidade.

Combater a fome significa investir em produção, gerar renda e emprego e reduzir pressões inflacionárias em escala global, injetando coerência à macroeconomia da retomada do crescimento.

Seria um despropósito tratá-la como tema lateral à agenda da crise. Coordenar fluxos de oferta e demanda de alimentos com menor inflação de preços, num horizonte demográfico de 9 bilhões de bocas em 2050, não pode ser obra do improviso nem de automatismos cegos de mercados desregulados.

Trata-se de uma delicada operação de engenharia política e de conhecimento técnico que evoca a mobilização ecumênica das forças do mercado, do governo e da sociedade. A experiência bem-sucedida de um amplo programa de segurança alimentar implantado no Brasil desde 2003, com mais de 50 ações e iniciativas desdobradas a partir do Fome Zero, justifica o otimismo.

Nas dimensões expandidas da escala global, o desafio convive igualmente com trunfos para alavancar a sua reversão.

Potencialidades acionáveis pela comunidade internacional de escala modesta perto do socorro à crise do sistema financeiro teriam evitado a emergência alimentar no Chifre da África. O alerta foi feito pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) há mais de dois anos. Possibilitariam, ademais, estreitar um hiato de produtividade agrícola que o mercado sozinho não fechará.

A disparada dos preços dos cereais em 2008 elevou a produção dos países ricos em quase 13%; nas economias pobres e em desenvolvimento, o efeito limitou-se a 3,5%.

Excluídos Brasil, China e Índia, foi de menos de 0,5%.

O gasto com comida representa em média mais da metade do orçamento familiar das populações mais pobres. É fácil depreender a espiral de turbulência que cada soluço altista acarreta à existência de quem vive à beira do abismo.

Desde março o índice de preços internacionais de alimentos da FAO permanece praticamente estável. Mas quase 40% acima do patamar de 2010.

Tão ou mais grave que o novo degrau dos preços dos alimentos é a volatilidade. Enquanto o mundo busca novos consensos regulatórios, a mitigação das oscilações terá que ser enfrentada com o manejo dos estoques mundiais, associado ao esforço de produção nos polos mais vulneráveis.

Uma dimensão imediatamente resgatável ao domínio da incerteza é a transparência sobre as disponibilidades físicas de alimentos, hoje administradas em grande parte por corporações privadas.

A exemplo do que ocorre com estoques de vacinas, indispensáveis à sobrevivência humana, a transparência, neste caso, é um direito da sociedade e um dever dos mercados. O Estado deve regulá-la democraticamente.

JOSÉ GRAZIANO DA SILVA é representante regional da FAO para América Latina e Caribe e diretor-geral eleito da instituição para 2012-2015."

(Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo, edição do dia 3 de agosto de 2011)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Uma nova Lei Geral para micro e pequenas empresas

Em artigo publicado na Folha de S. Paulo, os deputados Cláudio Puty (PT-PA) e Pepe Vargas (PT-RS) discorrem sobre a Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, que está completando quatro anos e poderá ser aperfeiçoada por meio de um projeto de lei complementar. " A nova Lei Geral criará um ambiente mais favorável à formalização e ao crescimento dos pequenos negócios, que no Brasil geram 20% do PIB diante de médias de 35% na América Latina e acima de 50% em alguns países europeus", afirmam os dois parlamentares. Para produzir novos avanços, a Frente Parlamentar da Micro e Pequena Empresa, que reúne 258 deputados e 26 senadores, protocolou o projeto de lei complementar nº 591/2010, que aperfeiçoa a legislação em diversos pontos. Leia, abaixo, a íntegra do artigo intitulado "Aperfeiçoando micro e pequenas empresas":

"A Lei Geral da Micro e Pequena Empresa está completando quatro anos. Ela produziu autêntica reforma tributária para este segmento, que abarca 98% das empresas e gera 56% dos empregos formais.

Ela reduziu a carga tributária e simplificou o sistema, unificando o recolhimento de seis tributos federais. Permitiu um salto de 1,337 milhão de optantes do antigo regime, em 2006, para 5,010 milhões em maio de 2011. A expressiva formalização ajuda a explicar por que o Regime Geral de Previdência de segurados urbanos passou a ter superavit, fato ainda pouco conhecido.

Com a nova lei, aumentou a participação de micro e pequenas empresas nas compras governamentais: de R$ 2,6 bilhões em 2006 para R$ 15,9 bilhões em 2010.

Para produzir novos avanços, a Frente Parlamentar da Micro e Pequena Empresa, que reúne 258 deputados e 26 senadores, protocolou o projeto de lei complementar nº 591/2010, que aperfeiçoa a legislação em diversos pontos. Destacamos os mais significativos:

1) Reajusta em 50% os limites de faturamento das empresas para fins de enquadramento no Simples.

Corrige, assim, os efeitos do "imposto inflacionário" dos últimos anos e protege os pequenos negócios de tais efeitos projetados até 2014. Os novos limites máximos são R$ 48 mil, R$ 360 mil e R$ 2,4 milhões, respectivamente, para empreendedor individual, microempresa e empresa de pequeno porte.

2) Autoriza o parcelamento de dívidas tributárias para cerca de 560 mil pequenos negócios que estão inadimplentes com o Simples, permitindo que possam voltar ao sistema, reduzindo a carga de impostos.

3) Para ampliar a participação de micro e pequenas empresas nas exportações, hoje inferior a 2%, o projeto permitirá que faturem na exportação até o dobro do limite de enquadramento no Simples.

4) Permitirá que novos segmentos possam optar pelo Simples, reduzindo a lista de atividades excluídas dos efeitos positivos da lei.

5) Definirá critérios para limitar o uso abusivo do mecanismo da substituição tributária, que concentra em um só contribuinte o recolhimento antecipado dos tributos devidos em todas as operações da cadeia produtiva.

Também permitirá a geração do crédito tributário, quando empresa não optante realiza compras de empresa optante do Simples.

6) Ampliará a desburocratização, com redução de custos com taxas para o empreendedor individual na abertura, no funcionamento e no fechamento do seu negócio, intensificando os procedimentos que ele poderá realizar on-line no portal do empreendedor.

A nova Lei Geral criará um ambiente mais favorável à formalização e ao crescimento dos pequenos negócios, que, no Brasil, geram 20% do PIB, diante de médias de 35% na América Latina e acima de 50% em alguns países europeus.

CLAUDIO PUTY é deputado federal (PT-PA) e presidente da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados.

PEPE VARGAS é deputado federal (PT-RS) e presidente da Frente Parlamentar Mista da Micro e Pequena Empresa."

(Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo, edição do dia 29 de julho de 2011)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Integração física da América do Sul, defesa e convergência de objetivos


"O país do último Prêmio Nobel da Paz gastou no ano passado US$ 700 bilhões com suas Forças Armadas. Em seguida aos EUA vêm China, Reino Unido, França, Rússia, Japão, Oriente Médio, Alemanha e América do Sul (conforme o relatório anual do Instituto Internacional de Pesquisa e Paz de Estocolmo).

Buscar a paz se preparando para a guerra, vencer sem derrotar são lendárias formulações de chineses e romanos ainda atuais diante do ambiente estratégico internacional. Que fazer? Melhor que degolar prisioneiros e não recolher feridos, a mais forte tradição das guerras sulamericanas de independência. Tradição atualíssima nas tiranias da África.

No entanto, meios militares não nos protegem de tudo. Especialmente quando não existem mais fronteiras naturais e seladas. Muito menos na Amazônia, a melhor matriz energética disponível na maior bacia hidrográfica e corpo florestal contínuo do planeta, contornado por dois oceanos, majestosa cordilheira, inúmeras fronteiras nacionais. Economia, meio ambiente e sociedade são os três vetores do equilíbrio atual em direção à virtuosa ocupação do espaço desprotegido, sem unilateralismo ou ambição hegemônica. Cuidar dos escudos naturais para que não virem alvos desprotegidos. Liderar sem querer mandar.

Com efeito, a integração física e econômica da América do Sul tem os mesmos fundamentos dissuasivos e pacifistas de nossa política de defesa. E permite modernizar o arcabouço jurídico precário que rege as relações entre nossos vizinhos para aumentar a conexão e a interação interregional e global. Só benefícios partilhados articulam comércio e paz, dois dos maiores bens públicos internacionais.

O sonho de integração regional nasceu com seus processos libertários do início do século 19. De lá para cá é justo pensar que a integração estrutural e transnacional — essa que nos serve de maneira tão prática e direta — seja de fato o melhor caminho para a estabilidade.

As redes de conexões físicas que serviam a propósitos econômicos na Europa precederam a integração política, que só veio a ser alcançada recentemente. Criada após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço é o próprio embrião da União Europeia. Pensada como um instrumento capaz de impossibilitar um novo conflito no continente, já que com ela a produção de dois dos principais insumos necessários tanto à paz quanto à guerra passariam a ter controle diluído supranacionalmente. A experiência européia remonta também à criação de Comissões Internacionais para abrir canais, construir estradas de ferro e coordenar a navegação em rios que cruzam vários países, sobretudo o Danúbio e o Reno.

Na América do Sul ainda predominam as forças da fragmentação. Assim, estimular a conexão dos países é estratégico para a incrementação do comércio, da livre circulação das pessoas e da paz.

Na Região Amazônica, a responsabilidade do Estado é essencial. Em virtude das naturais restrições ambientais, alta sensibilidade do ecossistema local e da necessidade de se poupar o bioma, cabe à política pública proteger e liderar o processo de ocupação civilizatória que evite a exploração predatória. Uma verdadeira cidadania das águas, vetor limpo de desenvolvimento, nestes tempos em que estamos atingindo o limite do que pode ser resolvido por tecnologia. Mas ser um Estado exemplar para nós e nossos vizinhos, preocupado com a sustentabilidade de seus próprios projetos e ações e não somente fiscal da sustentabilidade dos outros.

Desde Euclides da Cunha, o Brasil busca compreender e construir os eixos físicos, estradas, hidrovias, ferrovias, hoje acrescidos de infovias, radares, satélites e tecnologias. Rumo ao sonho de integração interoceânico e continental que nos leve de Roraima a Georgetown; de Manaus a Caracas; de Assis Brasil a San Juan , da bacia amazônica do Atlântico ao litoral amazônico do Pacífico. Usinas binacionais com Bolívia e Peru. Verdadeiros anéis energéticos de energia limpa disponível para toda região.

É a integração física que aumenta a convergência e a harmonia de propósitos entre nosso povo e nossos vizinhos. E dá sentido e qualidade à integração política, sua principal conseqüência.

Paulo Delgado, sociólogo, foi deputado federal por seis mandatos"
(Artigo publicado no jornal Correio Braziliense, edição do dia 24 de julho de 2011)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Dez anos sem Milton Santos, um intelectual visionário e crítico da globalização


" Poucos lembraram, durante a mais recente crise do capitalismo internacional, de um brasileiro que, ao menos desde o final do século passado, alertava para os riscos de as sociedades dobrarem-se à lógica da financeirização das relações sócio-políticas.


Visionário, Milton Almeida Santos (1926-2001) alertou para o risco de os Estados nacionais dobrarem-se aos ditames da roleta financeira que caracteriza o atual período da economia, por ele denominado de “globalitarismo”. E chamou a atenção para a necessidade de restabelecer a Política (com “P” maiúsculo) no centro da reação ao processo que tenta submeter a todos a uma lógica econômica que, sendo principalmente contra os mais pobres, os “de baixo”, acaba por atingir ao interesse de soberania do território nacional.



Seu pensamento a respeito, manifestado várias vezes EM inúmeros artigos é lindamente sintetizado no livro Por Uma Outra Globalização: do Pensamento Único à Consciência Universal, cuja primeira edição veio a lume poucos meses antes de sua morte, em 24 junho de 2001. Logo se tornou um best-seller, entre os mais de 40 livros de sua autoria.



O terremoto financeiro que atingiu vários países em 2008-2009, a partir do seu epicentro nos Estados Unidos, com efeitos que ainda persistem como na Grécia ou Portugal, seria resultado da irresponsabilidade de agentes centrais do setor que hegemoniza hoje a economia, o das finanças com seu corolário de especulações nas bolsas.

A eleição do dinheiro em estado puro, associado às novas tecnologias, cujo elemento central são as técnicas da informação e seus aparatos, tenta impor – com um discurso único – e gera um ambiente que esfacela a solidariedade entre os homens, as empresas e os países. É preciso construir uma alternativa.



Milton Santos, um otimista, vê que já estariam em marcha novas possibilidades de tornar o mundo melhor, a partir dos grupos sociais com maior responsabilidade pela defesa dos verdadeiros interesses nacionais. Quando assistimos às manifestações das multidões que pensávamos condenadas a aceitar aquela lógica imposta de cima para baixo, consideramos que a esperança de um mundo melhor é, sim, possível.

Dez anos depois de sua morte, constatamos o quão fecundo é o seu legado. Sua obra completa está sendo relançada pela Edusp e por outras iniciativas. Uma série de estudos e investigações sobre a contribuição que deu à Geografia, libertando-a das amarras da mera descrição física e pondo-a como disciplina dos sujeitos sociais, pululam em toda parte.



A importância de Milton Santos ultrapassou fronteiras. Forçado pelas circunstâncias da ditadura militar de 64, que o prendeu e o expulsou do país, construiu uma trajetória ímpar entre os(as) netos(as) de africanos escravizados no Brasil. Soube superar as adversidades, tornando-se um intelectual referenciado internacionalmente. Seu exemplo dignifica os brasileiros".



Texto do deputado federal Luiz Alberto (PT/BA), presidente da Frente Parlamentar Mista pela Igualdade Racial e em Defesa dos Quilombolas.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Entra em consulta pública projeto que tipifica crimes na internet

Entrou em consulta pública, nesta sexta-feira (1º) , minuta de Projeto de Lei que tipifica os crimes cometidos na internet que não estão previstos na legislação atual. Oprojeto é de autoria do líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira (SP), com os deputados Brizola Neto (PDT-RJ), Emiliano José (PT-BA), João Arruda (PMDB-PR), Luiza Erundina (PSB-SP) e Manuela D´Ávila (PCdoB-RS).

Os deputados seguem pedindo o envio, na próxima semana, do projeto de Marco Civil da Internet, que já passou por consulta pública, no Ministério da Justiça. "Queremos analisar a internet do ponto de vista dos direitos e com uma visão ampla", avalia o líder do PT.


A minuta colocada em discussão pelos deputados é uma alternativa ao Projeto de Lei 84/99, relatado pelo deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que tem o mesmo objetivo, mas que termina por restringir o uso da internet. A minuta está em consulta no endereço
http://edemocracia.camara.gov.br/web/seguranca-da-internet/inicio

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Brasil sem Miséria, um novo passo para aprofundar políticas sociais do governo

O programa "Brasil sem Miséria", lançado pela presidenta Dilma Rousseff, dá um novo passo para aprofundar o conjunto de políticas sociais que o Brasil vem implementando desde 2003. Além de tirar da miséria cerca de 16 milhões de brasileiros que ainda estão à margem das oportunidades criadas, vai ajudar ainda a manter o ritmo do crescimento econômico, com a com distribuição de renda. Essas ponderações são do líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), em artigo publciado na Folha de São Paulo desta quarta-feira, 29/6, com o título "Superar a miséria". A íntegra segue abaixo:

" O programa "Brasil sem Miséria", lançado neste mês pela presidenta Dilma, inaugura novo capítulo nas políticas sociais do governo. O objetivo: remover da miséria mais profunda todos os 16 milhões de brasileiros que ainda vivem à margem das oportunidades que surgiram nos últimos anos no país.

No governo Lula, o Bolsa Família tirou da miséria 28 milhões de brasileiros e fez outros 36 milhões ascenderem à classe média.

O combate à pobreza se mostrou uma bem-sucedida estratégia para pavimentar o caminho do desenvolvimento do país. Com a nova classe média, o mercado consumidor interno foi ampliado de forma extraordinária e, junto com ele, as oportunidades de negócios para as empresas brasileiras.
Agora, o Estado vai atrás daqueles milhões de brasileiros que, de tão desamparados, não conseguem sequer se inscrever em programas sociais muito conhecidos. Isso ocorre, entre outros motivos, porque é uma pobreza que se esconde, perdida em grotões longínquos do nosso imenso território ou em zonas segregadas de grandes cidades.

O ponto de partida do trabalho foi um estudo encomendado pelo governo federal ao IBGE, que identificou onde estão esses 16 milhões de compatriotas e quais são suas condições de vida. A pesquisa detectou que 46,7% desses brasileiros vivem na zona rural e que, destes, 30,3% são analfabetos, metade tem até 19 anos, 55% são mulheres e 70,8% são negros ou pardos. As regiões Norte e Nordeste concentram 75% desses excluídos do país.

O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, que planejou e implementará o "Brasil sem Miséria", programou ações nacionais e regionais a partir de três eixos: renda, inclusão produtiva e acesso aos serviços públicos. Serão montados dois grandes diagnósticos: o Mapa da Pobreza do Brasil e o Mapa de Oportunidades.
A partir dos dados obtidos, o governo federal incentivará o aumento da pequena produção agrícola. Um dos componentes inovadores do "Brasil sem Miséria" deverá ser a Bolsa Verde, programa de apoio à conservação ambiental que autorizará a transferência de recursos a famílias carentes que colaborarem para a preservação e recuperação do meio ambiente.

Isto é combinar, na prática, desenvolvimento econômico e conservação ambiental.

Os programas sociais do governo, como o Bolsa Família, o Brasil Alfabetizado, o Saúde da Família, o Brasil Sorridente, o Mais Educação e o Rede Cegonha, serão ampliados, e o acesso a eles será facilitado.

O governo federal também irá se articular com governos estaduais e prefeituras para somar esforços.

Não basta a criação dos programas e o mérito de cada um; o mais significativo de tudo é fazer chegá-los a todos os brasileiros que precisam. O programa "Brasil sem Miséria" será decisivo para que políticas públicas corretas lancetem de vez a chaga da exclusão social.

E para que os milhões de brasileiros resgatados da marginalidade ajudem a manter funcionando o mecanismo do crescimento econômico com distribuição de renda, esse segredo nada secreto do sucesso do Brasil de hoje.

CANDIDO VACCAREZZA, médico, é deputado federal pelo PT-SP e líder do governo na Câmara

terça-feira, 21 de junho de 2011

Jorge Hage rebate críticas e mostra que RDC garante transparência a obras da Copa

Em artigo publicado no jornal O Globo (21/6), o ministro-chefe da Controladoria Geral da União, Jorge Hage, lança luzes sobre a confusão criada em torno da Medida Provisória 527, que institui o Regime Diferenciado de Contratações (RDC) para as obras da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016. " Não é justo é confundir a opinião pública, juntando meias verdades sobre um tema com fatos reais sobre outro e com inverdades completas sobre um terceiro, para daí extrair a "confirmação" da tese que se queria provar: que o Governo quer esconder gastos para facilitar a corrupção", diz ele, num dos trechos do artigo cuja íntegra segue abaixo:

"Não me parece correto deixar que prevaleça a enorme confusão que se criou, intencionalmente ou não, a respeito dos temas "obras da Copa" e "sigilo de documentos".

Como diz a sabedoria popular, "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa". As divergências de opinião são naturais e sadias, mas não é razoável tolerar tamanha desinformação sobre os fatos que embasam as opiniões.

Uma coisa é o que aconteceu com o projeto de lei de Aceso a Informações, no Senado, o que nós da Controladoria Geral da União lamentamos, não só porque sempre defendemos as limitações ao sigilo, mas também porque isso atrasa a edição da lei, pela qual o Brasil é muito cobrado, inclusive internacionalmente.

Outra coisa, diferente, e que nada tem a ver com isso, é o que se está discutindo na MP 527. Aí não se trata de limitar a divulgação de gastos à sociedade, mas apenas de não revelar antecipadamente para os licitantes o valor máximo que o Governo está disposto a pagar por uma obra. A ideia dos que propuseram essa mudança é que assim os preços deverão cair, inclusive porque se evita o conluio. Se vai funcionar bem, só o futuro dirá, mas vale a pena experimentar, pois o modelo atual, já se sabe, não é bom. É claro que esse dispositivo, como vários outros dessa MP, ainda pode ser melhorado, inclusive o da chamada "contratação integrada". Uma sugestão da CGU é tornar obrigatória a divulgação, no edital, dos quantitativos físicos e da composição analítica dos serviços, pois assim se poderá melhor avaliar as propostas sob o mesmo referencial e os concorrentes teriam uma melhor ideia das premissas do Governo na concepção da obra (já que não haverá projeto básico nesse momento). Mas é óbvio que o preço afinal contratado será divulgado por todos os meios, inclusive no Portal da Copa. Então, não se reduz em nada a transparência do gasto público.

Uma terceira coisa foi a notícia de que o Ministério do Esporte (ME) teria a intenção de não divulgar os montantes de outros investimentos relacionados à Copa (saúde, segurança etc), mas isso foi logo esclarecido pelo próprio ministro, que deixou claro não se tratar de esconder nada, e sim de definir se esse ou aquele investimento será considerado integrante da matriz da Copa.

Por fim, misturou-se tudo isso com a crítica de que alguns dados sobre a Copa, no Portal da CGU, estão desatualizados. Isso, sim, é verdade e se deve à precariedade do fluxo de informações que vêm dos Estados para o ME e que cabe a este repassar à CGU, o que não vem ocorrendo, até aqui, no ritmo desejável.

Agora, o que não é justo é confundir a opinião pública, juntando meias verdades sobre um tema com fatos reais sobre outro e com inverdades completas sobre um terceiro, para daí extrair a "confirmação" da tese que se queria provar: que o Governo quer esconder gastos para facilitar a corrupção.

Como disse a presidenta Dilma, mesmo na sadia tarefa de criticar é preciso observar os limites do bom senso. É só o que pedimos: não agredir os fatos, ou ao menos permitir que sejam veiculadas todas as versões.

JORGE HAGE é ministro-chefe da Controladoria Geral da União.