quarta-feira, 27 de março de 2013


Na primeira entrevista exclusiva após deixar a Presidência da República, o ex-presidente Lula falou 
ao jornal Valor sobre temas que vão desde campanha eleitoral até a recente reportagem venenosa da Folha de S. Paulo sobre o financiamento de viagens do ex-presidente ao exterior. Lula disse que não respondeu à altura, pois que a intenção era fazê-lo “morder a isca”, colocando-se a vender qualquer produto brasileiro no exterior. “Se for preciso vender carne, linguiça, carvão, faço com maior prazer”, afirmou.

ENTREVISTA COM LULA

Valor: Como está sua saúde?

Luiz Inácio Lula da Silva: Agora estou bem. Há um ano vou à fisioterapia todos os dias às 6h da manhã. Minha perna agora está 100%. Estou com 84 quilos. É 12 a menos do que já pesei mas é oito a mais do que cheguei a ter. Não tem mais câncer, mas a garganta leva um bom tempo para sarar. A fonoaudióloga diz que é como se fosse a erupção de um vulcão. Tem uma pele diferenciada na garganta que leva tempo para cicatrizar. Quando falo dá muita canseira na voz. Já tenho 67 anos. Não é mais a garganta de uma pessoa de 30 anos.

O senhor deixou de fumar e beber?

Não dá mais porque irrita a garganta.

Dois anos e três meses depois do início do governo Dilma, qual foi seu maior acerto e principal erro?

Quando deixei a Presidência, tinha vontade de dar minha contribuição para a Dilma não me metendo nas coisas dela. E acho que consegui fazer isso quando viajei 36 vezes depois de deixar o governo. Fiquei um ano imobilizado por causa do câncer. Estou voltando agora por uma coisa mais partidária. Sinceramente acho que no meu governo eu deixei muita coisa para fazer. Por isso foi importante eleger a Dilma, para ela dar continuidade e fazer coisas novas. O Brasil nunca esteve em tão boas mãos como agora. Nunca esse país teve uma pessoa que chegou na Presidência tão preparada como a Dilma. Tudo estava na cabeça dela, diferentemente de quando eu cheguei, de quando chegou Fernando Henrique Cardoso. Você conhece as coisas muito mais teóricas do que práticas. E ela conhecia por dentro. Por isso que estou muito otimista com o sucesso da Dilma e ela está sendo aquilo que eu esperava dela. Foi um grande acerto. Tinha obsessão de fazer o sucessor. Eu achava que o governante que não faz a sucessão é incompetente.

A presidente baixou os juros, desonerou a economia, reduziu tarifas de energia e apreciou o câmbio. Ainda assim não se nota entusiasmo empresarial por seu governo ou sua reeleição. A que o senhor atribui a insatisfação? Teme-se que esse governo não tenha uma política anti-inflacionária tão firme ou é pela avaliação de que o governo Dilma seja intervencionista?

Não creio que haja má vontade dos empresários com a presidente. Passamos por algumas dificuldades em 2011 e 2012 em função das políticas de contração para evitar a volta da inflação. Foi preciso diminuir um pouco o crédito e aí complicou um pouco, mas Dilma tem feito a coisa certa. Agora tem conversado mais com setores empresariais. Acho que os empresários brasileiros, e eu vivi isso oito anos assim como Fernando Henrique também viveu, precisam compreender que uma economia vai ter sempre altos e baixos. Não é todo dia que a orquestra vai estar sempre harmônica. O importante é não perder de vista o horizonte final. O Brasil está recebendo US$ 65 bilhões de investimento direto. Então não dá para se ter qualquer descrença no Brasil nesse momento. Nunca os empresários brasileiros tiveram tanto acesso a crédito com um juro tão baixo. Vamos supor que a Dilma não tivesse a mesma disposição para conversar que eu tinha. Por razões dela, sei lá. O dado concreto é que, de uns tempos para cá, a Dilma tem colocado na agenda reuniões com empresários e partidos políticos.

Os empresários acham que ela é ideológica demais...

O que é importante é que ela não perde suas convicções ideológicas, mas não perde o senso prático para governar o país. Ela não vai governar o país com ideologia. Se alguém ainda aposta no fracasso da Dilma, pode começar a quebrar a cara. Ela tem convicção do que quer. Esses dias liguei para ela e disse para tomar cuidado para não passar dos 100%. Porque há espaço para ela crescer. Vai acontecer muito mais coisa nesse país ainda. Não adianta torcer para não ter sucesso. Não há hipótese de o Brasil não dar certo.

A queixa é de que tudo que eles [os empresários] precisam têm que falar com a presidente porque os ministros não têm autonomia para decidir, ela não delega. É isso?

Se isso foi verdade, já acabou. Sinto, nos últimos meses, que a Dilma tem feito muito mais reuniões. Tem soldado muito mais o governo. A pesquisa mostra que o governo vem crescendo e vai chegar perto dela nas pesquisas. E os ajustes vão acontecendo. É a primeira vez que a gente tem uma mulher. O papel dela não é tão fácil quanto o meu porque 99% das pessoas que recebia eram homens, e homem fala coisa que mulher não pode falar, conta piada. Não há hábito do homem ainda perceber a mulher num cargo mais importante. Mas os homens vão ter que se acostumar. Uma mulher não pode se soltar numa reunião onde só tenha homem. Então acho que as pessoas têm que aprender a gostar das outras pessoas como elas são. A Dilma é assim e é assim que ela é boa para o Brasil. A mesma coisa é a Graça [Foster]. É uma mulher muito respeitada também. Não brinca nem é alegre, mas cada um tem seu jeito de ser.

Seu governo viabilizou projetos essenciais para o rumo que a economia pernambucana tomou, como o polo petroquímico e a fábrica da Fiat. A pré-candidatura Eduardo Campos, que agrega adversários fidagais de seu governo, como Jarbas Vasconcelos e Roberto Freire, e anima até José Serra, é uma traição?

Não. Minha relação de amizade com Eduardo Campos e com a família dele, que passa pela mãe, pelo avô e pelos filhos, é inabalável, independentemente de qualquer problema eleitoral. Eu não misturo minha relação de amizade com as divergências políticas. Segundo, acho muito cedo pra falar da candidatura Eduardo. Ele é um jovem de 40 e poucos anos. Termina seu mandato no governo de Pernambuco muito bem avaliado. Me parece que não tem vontade de ser senador da República nem deputado. O que é que ele vai ser? Possivelmente esteja pensando em ser candidato para ocupar espaço na política brasileira, tão necessitada de novas lideranças. Se tirar o Eduardo, tem a Marina que não tem nem partido político, tem o Aécio que me parece com mais dificuldades de decolar. Então é normal que ele se apresente e viaje pelo Brasil e debata. Ainda pretendo conversar com ele. A Dilma já conversou e mantém uma boa relação com ele.

O Fernando Henrique teve como candidato um ministro e o senhor também. O senhor acha que ainda é possível demover Eduardo Campos com a proposta de que ele se torne um ministro importante no governo Dilma e depois seu candidato? É possível se comprometer com quatro anos de antecedência?

Somente Dilma é quem pode dizer isso. Não tenho procuração nem do Rui Falcão nem da Dilma para negociar qualquer coisa. Vou manter minha relação de amizade com Eduardo Campos e minha relação política com ele. Até agora não tem nada que me faça enxergá-lo de maneira diferente da que enxergava um ano atrás. Se ele for candidato vamos ter que saber como tratar essa candidatura. O Brasil comporta tantos candidatos. Já tive o PSB fazendo campanha contra mim. O Garotinho foi candidato contra mim. O Ciro também. E nem por isso tive qualquer problema de amizade com eles. Candidaturas como a do Eduardo e da Marina só engrandecem o processo democrático brasileiro. O que é importante é que não estou vendo ninguém de direita na disputa.

Já que o senhor tem uma relação tão forte de amizade com ele, vai pedir para Eduardo Campos não se candidatar?

Não faz parte da minha índole pedir para as pessoas não se candidatarem porque pediram muito para eu não ser. Se eu não fosse candidato eu não teria ganho. Precisei perder três eleições para virar presidente. Eu não pedirei para não ser candidato nem para ele nem para ninguém. A Marina conviveu comigo 30 anos no PT, foi minha ministra o tempo que ela quis, saiu porque quis e várias pessoas pediram para eu falar com ela para não ser candidata e eu disse: "Não falo". Acho bom para a democracia. E precisamos de mais lideranças. O que acho grave é que os tucanos estão sem liderança. Acho que Serra se desgastou. Poderia não ter sido candidato em 2012. Eu avisei: não seja candidato a prefeito que não vai dar certo. Poderia estar preservado para mais uma. Mas Serra quer ser candidato a tudo, até síndico do prédio acho que ele está concorrendo agora. E o Aécio não tem a performance que as pessoas esperavam dele.

Quem é o adversário mais difícil da presidente: Aécio, Marina ou Eduardo?

Não tem adversário fácil. O que acho é que Dilma vai chegar na eleição muito confortável. Se a gente trabalhar com seriedade, humildade e respeitando nossos adversários e a economia estiver bem, com a inflação controlada e o emprego crescendo, acho que certamente a Dilma tem ampla chance de ganhar no primeiro turno.

Como vai ser sua atuação na campanha de 2014? Vai atuar mais nos bastidores, na montagem das alianças, ou vai subir em palanque em todos os Estados?

Eu quero palanque.

Vai subir em Pernambuco e pedir votos para Dilma?

Vou. Vou lá, vou em Garanhuns, vou no Rio, São Paulo, na Paraíba, em Roraima...

Seus médicos já liberaram?

Já. Se eu não puder eu levo um cartaz dela na mão (risos). Não tem problema. Acho que ela vai montar uma coordenação política no partido e eu não sou de trabalhar bastidores. Eu quero viajar o país.

Nem às costuras de alianças o senhor vai se dedicar?

Não precisa ser eu. O PT costura.

Quais são as alianças mais difíceis? Como resolver o problema do Rio?

No Rio tem uma coisa engraçada porque nós temos o Pezão, que é uma figura por quem eu tenho um carinho excepcional. Nesses oito anos aprendi a gostar muito do Pezão, um parceiro excepcional. E tem o Lindbergh.

Ele disse que vai fazer o que o senhor mandar...

Não é bem assim. Eu não posso tirar dele o direito de ser candidato. Ele é um jovem talentoso, um encantador de serpentes, como diriam alguns, com uma inteligência acima da média, com uma vontade de trabalhar, como poucas vezes vi na vida. Ele quer ser. Cabe ao partido sempre tratar com carinho, porque nós temos que ter sempre como prioridade o projeto nacional. Ou seja: a primeira coisa é a eleição da Dilma. Não podemos permitir que a eleição da Dilma corra qualquer risco. Não podemos truncar nossa aliança com o PMDB. Acho que o PT trabalha muito com isso e que Lindbergh pode ser candidato sem causar problema. Acho que o Rio vai ter três ou quatro candidaturas e ele, certamente, vai ser uma candidatura forte. Obviamente Pezão será um candidato forte, apoiado pelo governador e pela prefeitura. Na minha cabeça o projeto principal é garantir a reeleição de Dilma. É isso que vai mudar o Brasil.

Aqui em São Paulo o candidato é o Padilha?

Olha, acho que a gente não tem definição de candidato ainda. Você tem Aloizio Mercadante, que na última eleição teve 35% dos votos, portanto ele tem performance razoável. Tem o Padilha, que é uma liderança emergente no PT, que está em um ministério importante. Tem a Marta que eu penso que não vai querer ser candidata desta vez. Tem outras figuras novas como o Luiz Marinho, que diz que não quer ser candidato. Tem o José Eduardo Cardozo, que vira e mexe alguém diz que vai ser candidato e você pode construir aliança com outros partidos políticos. Para nós a manutenção da aliança com o PMDB aqui em São Paulo é importante.

Isso passa até pelo PT aceitar um candidato do PMDB?

Se tiver um candidato palatável, sim. Nós nunca tivemos tanta chance de ganhar a eleição em São Paulo como agora. A minha tese é a mesma da eleição de Fernando Haddad. Ou seja, alguém que se apresente com capacidade de fazer uma aliança política além dos limites do PT, além dos limites da esquerda. Como é cedo ainda, temos um ano para ver isso. Eu fico olhando as pessoas, vendo o que cada um está fazendo. E pretendo, se o partido quiser me ouvir, dar um palpite.

Em 2012, em São Paulo, o senhor defendeu a renovação do partido, com um candidato novo. Essa fórmula será mantida para o governo do Estado?

Hoje temos condições de ver cientificamente qual é o candidato que o povo espera. Por exemplo, quando Haddad foi candidato a prefeito, eu nunca tive qualquer preocupação. Todas as pesquisas que a gente trabalhava, as qualitativas que a gente fazia, toda elas mostravam que o povo queria um candidato como ele. Então era só encontrar um jeito de desmontar o Russomanno, que em algum lugar da periferia se parecia com o candidato do PT. Na época eu não podia nem fazer campanha direito. Estava com a garganta inchada. Eu subia no caminhão para fazer discurso sem poder falar, mas era necessário convencer as pessoas de que o candidato do PT era o Haddad, não era o Russomanno. Quando isso engrenou, o resto foi mais tranquilo. Para o governo do Estado é a mesma coisa. Não é quem sai melhor na pesquisa no começo. É quem pode atender os anseios e a expectativa da sociedade.

E quem pode?

Não sei. Temos que ter muito critério na escolha. A escolha não pode ser em função só da necessidade da pessoa, de ela querer ser. Tem que ser em função daquilo que é importante para construir um leque de aliança maior. Temos que costurar aliança, temos que trazer o PTB, manter o Kassab na aliança e o PMDB. Precisamos quebrar esse hegemonismo dos tucanos aqui em São Paulo, porque eles juntam todo mundo contra o PT. Precisamos quebrar isso. Acho que temos todas as condições.

Desde que deixou a Presidência, o senhor tem sido até mais alvejado que a presidente. Foi acusado de tentar manter a chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo. Agora foi acusado de ter suas viagens financiadas por empreiteiras. Como o senhor recebe essas críticas e como as responde?

Quando as coisas são feitas de muito baixo nível, quando parecem mais um jogo rasteiro, eu não me dou nem ao luxo de ler nem de responder. Porque tudo o que o Maquiavel quer é que ele plante uma sacanagem e você morda a sacanagem. É que nem apelido: se eu coloco um apelido na pessoa e a pessoa fica nervosa e começa a xingar, pegou o apelido. Se ela não liga, não pegou o apelido. Tenho 67 anos de idade. Já fiz tudo o que um ser humano poderia fazer nesse país. O que faz um presidente da República? Como é que viaja um Clinton? A serviço de quem? Pago por quem? Fernando Henrique Cardoso? Ou você acha que alguém viaja de graça para fazer palestra para empresários lá fora? Algumas pessoas são mais bem remuneradas do que outras. E eu falo sinceramente: nunca pensei que eu fosse tão bem remunerado para fazer palestra. Sou um debatedor caro. E tem pouca gente com autoridade de ganhar dinheiro como eu, em função do governo bem-sucedido que fiz neste país. Contam-se nos dedos quantos presidentes podem falar das boas experiências administrativas como eu. Quando era presidente, fazia questão de viajar para qualquer país do mundo e levar empresários, porque achava que o presidente pode fazer protocolos, assinar acordo de intenções, mas quem executa a concretude daquilo são os empresários. Viajo para vender confiança. Adoro fazer debate para mostrar que o Brasil vai dar certo. Compre no Brasil porque o país pode fazer as coisas. Esse é o meu lema. Se alguém tiver um produto brasileiro e tiver vergonha de vender, me dê que eu vendo. Não tenho nenhuma vergonha de continuar fazendo isso. Se for preciso vender carne, linguiça, carvão, faço com maior prazer. Só não me peça para falar mal do Brasil que eu não faço isso. Esse é o papel de um político que tem credibilidade. Foi assim que ganhei a Olimpíada, a Copa do Mundo. Quando Bush veio para cá e fomos a Guarulhos, disse a ele que era para tirarmos fotografia enchendo um carro de etanol. Tinham dois carros, um da Ford e um da GM, e ele falou: "Eu não posso fazer merchandising". Eu disse: "Pois eu faço das duas". Da Ford e da GM. E o Bush tirou foto com chapéu da Petrobras. Sem querer ele fez merchandising da Petrobras. Você sabe que eu fico com pena de ver uma figura de 82 anos como o Fernando Henrique Cardoso viajar falando que o Brasil não vai dar certo. Fico com pena.

O senhor acha que São Paulo corre risco de perder a abertura da Copa porque o Banco do Brasil não vai liberar dinheiro sem garantias?

Sinceramente não acredito que as pessoas que fizeram o sacrifício para chegar onde chegaram vão se permitir morrer na praia agora. A verdade é que o Corinthians precisa de um estádio de futebol independentemente de Copa do Mundo. São Paulo não pode ficar fora da Copa. Acho que seria um prejuízo enorme do ponto de vista político e simbólico o Estado mais importante da Federação, com os times mais importantes da Federação - com respeito ao Flamengo - esteja fora da Copa do Mundo. É impensável. Eles que tratem de arranjar uma solução.

O senhor voltará à política em 2018?

Não volto porque não saí.

Voltará a se candidatar?

Não. Estarei com 72 anos. Está na hora de ficar quieto, contando experiência. Mas meu medo é falar isso e ler na manchete. Não sei das circunstâncias políticas. Vai saber o que vai acontecer nesse país, vai que de repente eles precisam de um velhinho para fazer as coisas. Não é da minha vontade. Acho que já dei minha contribuição. Mas em política a gente não descarta nada.

Que análise o senhor faz do julgamento do mensalão?

Não vou falar por uma questão de respeito ao Poder Judiciário. O partido fez uma nota que eu concordo. Vou esperar os embargos infringentes. Quando tiver a decisão final vou dar minha opinião como cidadão. Por enquanto vou aguardar o tribunal. Não é correto, não é prudente que um ex-presidente fique dizendo "Ah, gostei de tal votação", "Tal juiz é bom". Não vou fazer juízo de valor das pessoas. Quando terminar a votação, quando não tiver mais recursos vou dizer para você o que é que eu penso do mensalão.

(entrevista publicada pelo jornal Valor em 27/03/2013)

segunda-feira, 18 de março de 2013

Posição racional


Dr. Rosinha

As políticas externas são conduzidas de modo a afirmar, no cenário mundial, os grandes e permanentes interesses dos países. Dessa forma, têm como estratégico o horizonte do longo prazo, no qual as idiossincrasias políticas de governos têm baixa relevância. É assim nos EUA, na China, na União Europeia.

É assim também no Brasil. Nossa exitosa diplomacia vem, há muito tempo, afirmando os interesses do Brasil no mundo, de modo racional e pragmático, seguindo diretrizes e princípios consolidados. Alguns estão inscritos no artigo 4º da Constituição. Um dos mais relevantes tange à busca permanente da integração da América Latina.

Consoante esse dispositivo constitucional, os governos do PT e aliados redobraram os esforços do Brasil para integrar a América Latina com objetivos claros: superar conflitos entre países, de modo a consolidar o subcontinente como uma região pacífica; desenvolver a integração das infraestruturas físicas da região, de forma a equacionar os gargalos logísticos ao desenvolvimento; promover a inserção da região no quadro da globalização assimétrica; e estimular o desenvolvimento econômico, social e político conjunto.

É do interesse objetivo do Brasil ter um entorno pacífico, integrado e próspero. Nosso desenvolvimento depende, em boa parte, do desenvolvimento de nossos vizinhos. Assim, na busca desse objetivo maior, procuramos estreitar relações com todos os países da região, sem nenhum tipo de discriminação político-ideológica. Mantemos relações estreitas com a Venezuela do falecido Chávez, com a Bolívia de Evo Morales e com o Equador de Rafael Correa. Mas também mantemos relações estreitas com o Chile de Sebastián Piñera, com a Colômbia de Juan Manuel Santos e com o México de Peña Nieto, governos considerados conservadores. E continuaremos a estreitar as relações com esses países, independentemente das colorações políticas de seus futuros líderes.

Quanto à democracia e aos direitos humanos, é preciso frisar que a tradição da diplomacia brasileira é a de evitar o uso político desse tema para perseguir países, o que levaria ao recrudescimento dos regimes autoritários, ao sofrimento de população inocente e ao surgimento de conflitos violentos. Não funciona, como demonstra o cinquentenário embargo a Cuba.

O Brasil considera que a melhor maneira de defender a democracia e os direitos humanos é via cooperação, diálogo e integração. Tal como previsto na Constituição, a política externa brasileira se norteia pelos princípios da não intervenção, da solução pacífica dos conflitos e defesa da paz. Uma política que convence ao invés de impor, que coopera ao invés de isolar. Uma política que nos faz cada vez mais fortes e respeitados.

Dr. Rosinha é Deputado federal (PT-PR)
(texto publicado no jornal O Globo em 18/03/03)

quarta-feira, 13 de março de 2013

Basta de violência contra a mulher


Eleonora Menicucci

O governo lança hoje uma rede de serviços para vítimas de violência que inclui orientação profissional, para garantir a independência da mulher.

As brasileiras já contam com um marco legal de enfrentamento à violência saudado pela Organização das Nações Unidas como uma das legislações mais avançadas do mundo, a Lei Maria da Penha.

Temos ainda a Central de Atendimento à Mulher Ligue 180, o Pacto de Enfrentamento à Violência com Estados e Municípios, a indenização regressiva (por meio da qual os agressores são obrigados a ressarcir ao INSS as indenizações pagas pelo Estado às vítimas ou a seus dependentes), o 2º Plano de Combate ao Tráfico de Pessoas e os centros especializados de fronteira.

Faltava consolidar a rede protetiva que integrasse os serviços e qualificasse o acesso. Não falta mais.
A presidenta Dilma, que falou firme com os agressores ao deixar claro no seu pronunciamento no Dia Internacional da Mulher que a maior autoridade neste país é uma mulher, lança hoje, no Palácio do Planalto, a Rede Integrada de Atendimento às mulheres vítimas de violência de gênero .

Fecha-se, assim, o círculo virtuoso de atendimento que aponta para a redução dessa pandemia social.

Essa rede oferecerá todos os serviços já disponíveis, atualmente dispersos, e outros tantos novos, a partir de agora de forma integrada. Estarão reunidos num mesmo prédio, especialmente desenhado para um acolhimento respeitoso e que será implantado inicialmente nas 27 capitais, desde que os governos estaduais adiram ao plano.

Nesse prédio, do Centro Especializado Integrado de Atendimento às Mulheres em Situação de Violência, funcionarão as delegacias da mulher, as defensorias, os juizados ou varas, as promotorias, defensorias e os serviços de assistência psicossocial.

Os serviços de saúde e de assistência social (centros de assistência social, de acolhimento e abrigamento) e o Instituto Médico Legal serão integrados aos centros por um fluxo de transporte que os ligará na medida da necessidade das vítimas.

A novidade é que a esses se somam a orientação para o trabalho, emprego e renda e o espaço de recreação para as crianças que acompanharem as mulheres.

Ou seja, as atendidas nessa rede disporão não mais apenas de uma porta de entrada, mas também, a partir de agora, de um acompanhamento integral e de uma porta de saída.

A porta de entrada poderá ser pelo Ligue 180, pelos serviços de saúde ou pelas delegacias da mulher. Com a rede integrada, a vítima passa a encontrar em um mesmo espaço todos os serviços de uma só vez, em vez de peregrinar em busca de cada um deles.

Outra vantagem da rede é o acompanhamento integral. Muitas vezes, a mulher sente medo e vergonha e demora até tomar a decisão de procurar um desses serviços. E, por dificuldades de acesso aos demais, atualmente dispersos em diferentes pontos das cidades onde vive, ela nem sempre retorna. Então, o serviço a perde. Uma das consequências tem sido, algumas vezes, a notícia de mais uma mulher assassinada. Assim, um serviço muito importante no centro é a recuperação da dignidade cidadã.

Garantir-se a defesa e a segurança e cuidar dos ferimentos causados na dignidade das vítimas é fundamental, mas não basta. É necessário um passo adiante. Isso porque essa mulher precisa tomar ou retomar em suas mãos a condução de sua vida e sua condição de sujeito de direitos.

É por isso que, no espaço da rede integrada dos serviços públicos, haverá a orientação e qualificação profissionais. Essa será a porta de saída.

Com mais esse investimento nas cidadãs, o governo federal comprova sua obsessão em eliminar a desigualdade de gênero na sua faceta mais cruel.

Eleonora Menicucci é ministra-chefe da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República
(texto publicado no jornal Folha de S. Paulo em 13/03/13)


terça-feira, 12 de março de 2013

Em dez anos, um novo Brasil


José Guimarães

A população brasileira tem motivos de sobra para comemorar os dez anos de governo petista, iniciado em 2003 com o presidente Lula e prosseguido pela presidenta Dilma Rousseff. As conquistas no governo de coalizão do PT e partidos aliados são superlativas.  Há pleno reconhecimento do povo brasileiro e, no âmbito internacional, os avanços são atestados – e elogiados – por diferentes entidades.

Criamos políticas sociais e estruturantes que deram outra feição ao País. Os resultados obtidos nestes dez anos mostram compromisso com a construção de um país desenvolvido, justo e solidário.

Nesse período, a inflação manteve-se controlada, o PIB per capita avançou quatro vezes mais, as reservas externas passaram de US$ 37,8 bilhões para US$ 373,1 bilhões e a produtividade aumentou 13%, contra a estagnação verificada nos anos FHC. Zeramos nossa dívida externa e, em vez de procurar os credores internacionais com o pires na mão, somos credores do FMI e dos Estados Unidos.

Enquanto o desemprego cresceu perto de 58% nos oito anos de governo tucano, na gestão petista diminuiu 38,9%. Criamos mais de 18 milhões de empregos com carteira assinada e atingimos o pleno emprego. Em nosso governo, o salário mínimo teve aumento real de 70%, passando da faixa dos US$ 80 - ao final de 2002 – para mais de US$ 320 hoje.

Apesar de ainda ser uma face cruel da nossa sociedade, a desigualdade recuou 11,4% nos últimos 10 anos. À época do governo FHC, o Brasil estava entre os três piores países nos indicadores de desigualdade social. Hoje estamos entre os 12.

Tudo graças à coragem de apostar na capacidade do povo brasileiro, implementando um projeto voltado para o crescimento com distribuição de renda e enfrentamento às desigualdades. O Estado, antes encarado como vilão, teve resgatado seu papel estratégico como indutor do desenvolvimento.

Rompemos com o modelo que ignorava a miséria secular, que acorrentava na condição de pobreza absoluta 45% dos brasileiros.  Com ousadia, o governo do PT e aliados garantiu a ascensão social de 40 milhões de brasileiros. Hoje, somos a sexta economia mundial, apontados como modelo internacional de distribuição de renda e justiça social.

Ao governar respeitando suas bandeiras históricas, o PT orgulha-se do crescimento econômico, mas principalmente pelos milhões de brasileiros saíram da linha de pobreza nos últimos dez anos. Não apenas a economia cresceu, mas também nossa autoestima e otimismo. É esse o nosso maior legado nosso governo.

José Guimarães é deputado federal pelo PT e líder do partido na Câmara
(texto originalmente publicado no jornal O Povo em 12/03/13

Uma Revolução Silenciosa



Cândido Vaccarezza

Em apenas dez anos, os governos Lula e Dilma Rousseff promoveram uma verdadeira revolução silenciosa no país: cerca de 40 milhões de brasileiros que antes viviam completamente à margem da sociedade, entraram no mercado consumidor. A política econômica desenvolvimentista e os programas sociais, como o Bolsa Família, Brasil Carinhoso, Brasil sem Miséria e Minha Casa, Minha Vida, entre outros, fizeram com que o Brasil, que tinha boa parte da população vivendo abaixo da linha de pobreza, virasse um país de classe média.

A mobilidade social ocorrida nesta década pode ser medida pelos dados da pesquisa “Observador Brasil”, realizada pela empresa Cetelem BGN-IPSOS – braço do banco francês BNP Paribas. Em 2005 62.702.248 pessoas integravam a classe C, enquanto que as classes D e E perfaziam 92.936.688 pessoas. Mas em 2011, a Classe C cresceu para 103.054.685 pessoas; já as classes D e E encolheram para 45.243.748 pessoas. Em termos de porcentagem, isso significa que a classe C cresceu 62% e as classes D e E sofreram redução de 49%. Até as classes A e B, que em 2005 tinham 26.421.172 pessoas, aumentou para 42.434.261 em 2011, o que corresponde a um aumento de 60%.

Outro dado importante para auferir as transformações ocorridas no país nesta última década é o índice GINI, que mede a distribuição de renda do país e vai de zero (mais igual) a um (menos igual). Ele era de 0,585 em 1995, foi a 0,563 em 2002 e caiu para 0,501 em 2011.

Em uma década os governos Lula e Dilma mudaram a face do país. Quando Lula assumiu a Presidência da República em 2003, o Brasil estava em crise e preocupado com o futuro. A inflação, que os tucanos se gabavam de ter controlado, batia em 12,5%; a taxa Selic atingia espantosos 45%; o dólar valia mais de R$ 4,00, em dezembro de 2002; o desemprego era de 12% e o risco país ultrapassava 2.400 pontos. Além disso, tínhamos uma dívida externa de US$ 200 bilhões e reservas de apenas US$ 36 bilhões. Sem contar o apagão e o racionamento de energia elétrica.

Hoje, depois de uma política que priorizou o desenvolvimento econômico com geração de empregos e distribuição de renda, a inflação baixou para 6%; a taxa Selic caiu para 7,5%; o câmbio está estabilizado em R$ 2,00; temos reservas de U$$ 318 bilhões o risco país caiu para 130 pontos – a ponto de ninguém mais se lembrar dele. Mais importante, nestes dez anos foram criados nada menos que 17 milhões de empregos com carteira assinada. Uma verdadeira proeza, visto que o governo anterior criou apenas cinco milhões de empregos em oito anos. E hoje, com uma taxa de desemprego de 4,6%, o Brasil está numa situação que os economistas classificam como “de pleno emprego”.

Nestes anos, a participação da massa salarial no PIB subiu de 46,3% em 2003 para 51,4% em 2009 (último ano com dados disponíveis). Tal mudança foi possível graças a uma política de aumento real do salário mínimo. Em 2003, ele era equivalente a pouco mais de US$ 50 e correspondia a 1,3 cestas básicas no estado de São Paulo; hoje, é capaz de comprar 2,13 cestas básicas, equivalendo a mais de US$ 300.

Estes resultados são fruto da opção que fizemos por abandonar uma política elitista, que privilegiava o rentismo e a concentração de renda e trocá-la pela opção estratégica pelo desenvolvimentismo com inclusão social.

Cândido Vaccarezza é deputado federal (PT-SP)
(texto originalmente publicado no jornal Brasil Econômico em 12/03/13)

segunda-feira, 11 de março de 2013

Chávez não é mito, é realidade


Samuel Pinheiro Guimarães Neto

Hugo Chávez fez uma série de programas importantes para a população pobre. Por isso é admirado. "Mas não é mito. É uma realidade". Assim, se a nova liderança venezuelana prosseguir com esses projetos terá a mesma popularidade. Se, ao contrário, tiver uma orientação "mais favorável às elites hegemônicas do país", vai "perder apoio interno".
A análise é do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto, 74, ex-secretário-geral do Itamaraty. Para ele, Chávez transformou a Venezuela na economia, na política e no social, deixando um "legado extraordinário".
Ex-alto representante geral do Mercosul, Guimarães compara Chávez a Getúlio Vargas e condena a expressão populismo --"um termo extremamente equivocado gerado pela academia". Segundo ele, se é populismo um governante realizar programas que beneficiam a maioria da população, "viva o populismo".

Folha - Qual o legado de Hugo Chávez?

Samuel Pinheiro Guimarães - É um legado extraordinário. O presidente Chávez promoveu uma verdadeira revolução social na Venezuela. Na América Latina deu apoio aos pequenos países do Caribe em termos de petróleo a preços mais baixos. No caso da América do Sul, deu apoio à Argentina na época da renegociação da dívida, com a compra de títulos. Houve cooperação com os países da região com a proposta de criação do Banco do Sul. E todo o esforço na área da integração energética. Na Venezuela, houve a revolução nas áreas de educação, saúde, habitação, construção de infraestrutura, estímulo à industrialização, aumento da produção agrícola.

Houve essa industrialização?

É um processo em curso, um esforço enorme. Há projetos comunitários na área da construção de habitações populares. E o esforço na erradicação do analfabetismo. A Unesco declarou a Venezuela como um território livre do analfabetismo. Em nível internacional, houve uma atitude de independência e de autonomia diante da pressão de grandes Estados e a uma reorientação das relações internacionais da Venezuela em direção à América do Sul, o que não acontecia no passado. Essas relações eram principalmente com os EUA. Um legado extremamente importante.

Como fica a Venezuela sem Chávez?

Vão se realizar eleições no prazo previsto pela Constituição. O vice-presidente Nicolás Maduro será o candidato natural. O candidato da oposição será o mesmo que enfrentou o presidente Chávez. Nas circunstâncias atuais, é muito provável que o vice-presidente seja eleito.

Haveria, então, uma continuidade nas políticas?

No sistema brasileiro, o vice-presidente também não tem votos independentes. Na Venezuela é um pouquinho diferente, porque o presidente escolhe o vice depois de eleito. Maduro é um companheiro de longa data do presidente Chávez, exerceu diversos cargos. Ser escolhido como vice, já no período da doença do presidente, foi uma indicação clara de que ele seria o sucessor que o presidente Chávez gostaria de ter.

Não haverá mudanças?

É preciso ver um pouco na prática. Vamos supor que as eleições se realizem na Venezuela em breve. Se for eleito o candidato da oposição é uma situação totalmente diferente. Mas a impressão que tenho é que, tendo em vista a própria recente eleição de Chávez em que a maior parte da população lhe deu apoio, as próprias circunstâncias da morte, que geram uma certa comoção, é muito provável que seja eleito o vice Maduro. Aí vai depender de como será a sua orientação. Se a sua orientação for mais favorável às elites hegemônicas do país, ele vai perder apoio interno. Coisa que eu não acredito que ele faça.

Como o sr. analisa a questão do enraizamento do chavismo na sociedade? Há os que dizem que tudo estava muito centralizado na figura do presidente?

As pessoas não têm admiração pelo presidente porque ele tem um determinado aspecto físico. As pessoas reconhecem no presidente a pessoa que executa certas políticas --na educação, na saúde, na habitação, no transporte público. Reconhecem que aquela pessoa incrementou e lutou por esses programas, destinando recursos para eles. Com isso a popularidade do presidente Chávez na Venezuela é extraordinária. Lá o voto não é obrigatório. Nas últimas eleições houve o comparecimento de 88%. Compare isso com outros países, com os EUA. É o desejo da população de votar. Se a nova liderança prosseguir com esses programas, ampliá-los virá a ter a mesma popularidade. Não é a pessoa do presidente Chávez. Isso é uma visão que não é verdadeira. O presidente Lula tem no Brasil a popularidade que tem não é por causa da figura dele. É pelos programas que ele implantou. Queiram ou não queiram as classes hegemônicas.

O mito Chávez vai perdurar?

O povo tende a se lembrar daqueles governantes que fizeram políticas que lhes foram favoráveis. Veja no caso do Brasil com Getúlio Vargas. Pode não ser a opinião da imprensa paulista. Mas o fato é que Getúlio Vargas criou a legislação trabalhista. As mulheres até o governo Vargas não votavam. Houve uma série de políticas. Por isso ele era apreciado. Não porque fosse uma pessoa de baixa estatura, com excesso de peso. Não foi por isso que se criou um mito em torno dele. Porque não há um mito em relação a outros presidentes brasileiros? É porque não fizeram.

O sr. compara Chávez a Getúlio?

Estou dando um exemplo. Estou fazendo uma comparação com pessoas que já passaram. Os programas sociais, a legislação é que fazem com que aja um grande apoio popular a uma liderança. E é o que faz com que, quando ela morre, desaparece, permaneça essa admiração. Com Getúlio Vargas houve o suicídio, que foi uma coisa dramática. É bem diferente de um presidente que faz uma série de programas importantes, mas que depois envelhece e morre normalmente. O presidente Chávez executou uma série de programas extremamente importantes para a população pobre da Venezuela, a maioria da população. Por isso ele tem essa admiração. Mas não é um mito. É uma realidade.

E a questão do populismo? Qual o significado? Ele se enquadra nesse termo?

Populismo é um termo extremamente equivocado gerado pela academia. Inclusive contra o presidente Vargas especificamente. O fato é o seguinte: se uma liderança política, um governante tem apenas promessas retóricas e não as realiza isso seria chamado de populismo. Mas se ele realiza os programas sociais e beneficia a maioria da população e isso é populismo, viva o populismo. É melhor do que programas que beneficiam as elites. Como tivemos tantos durante tanto tempo.

Para a história Chávez fica como um homem que...

Transformou a Venezuela. Exerceu uma política externa independente, de aproximação com os países vizinhos, diminuiu a dependência do petróleo, procurou diversificar sua política externa. Inclusive e principalmente em relação aos países da América Latina. Transformou a Venezuela politicamente, economicamente e socialmente.

Chávez sempre foi uma voz forte contra os EUA. Quem vai assumir esse papel?

Os EUA apoiaram o golpe de 2002. Há fundações norte-americanas que financiam a oposição na Venezuela há anos. Os EUA não negam o seu antagonismo. Não é que Chávez fosse antagônico aos EUA. Chávez nunca procurou promover mudança de governo dentro dos EUA. Nunca financiou movimentos nos EUA. O Estado que está sendo agredido tem que se defender.

Os EUA estão menos intervencionistas na América do Sul?

Hoje em dia os EUA estão num processo econômico interno muito delicado e complexo. Há a questão orçamentária, a falta de acordo entre oposição e governo, a China. São temas de grande amplitude. Os governos progressistas na América do Sul nunca afetam de forma mais profunda os interesses norte-americanos. Isso nunca ocorreu no Brasil, nem na Argentina

E nem na Venezuela. Os EUA são o principal mercado para o petróleo venezuelano.

E grande parte das importações da Venezuela vem dos EUA.

As Forças Armadas estão alinhadas com Maduro?

Acredito que sim, como estavam alinhadas com os programas do presidente Chávez. Imagino que, se os programas de Maduro vierem a ser semelhantes, certamente elas estarão alinhadas com ele.

A questão econômica, problemas no câmbio, a excessiva dependência do petróleo não são problemas para a próxima liderança?

A dependência da economia do petróleo é algo histórico. Tem se reduzido. O governo venezuelano vem procurando diversificar as suas exportações de petróleo, para não ficar ligado apenas a poucos clientes. E está tentando diversificar a economia. Dificuldades econômicas estão tendo as economias norte-americana e europeia. [Falam que há] grandes dificuldades econômicas na Venezuela, na Argentina, no Brasil, mas as grandes dificuldades econômicas estão na Europa, nos Estados Unidos. Nós estamos aqui nos auto-flagelando.

Como a morte de Chávez se reflete na Bolívia, no Equador, na Argentina, no Brasil, no Mercosul?

O presidente Chávez tinha relações de cooperação estreitas com esses países. É preciso saber se o novo governo manterá essa mesma política. Se a mantiver, não serão afetados. Não podemos ver a questão só das pessoas, mas sim das políticas. Se as políticas forem mantidas, não há nenhuma razão para efeito negativo. Pelo contrário, será positivo.

Os EUA deverão ter uma política mais agressiva em relação à Venezuela?

Não acredito. Certamente nesse momento, não.

Como o sr. analisa a política no continente?

Rafael Correa obteve uma vitória esmagadora nas eleições. Com observadores internacionais, sem nenhuma acusação de fraude. Na Bolívia, o apoio ao presidente Evo Morales é muito significativo. Os governos progressistas --Venezuela, Equador, Bolívia, Argentina, Brasil-- estão numa situação bastante razoável.

Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto é ex Secretário-geral do Itamaraty
(Entrevista para Eleonora de Lucena publicada pelo jornal Folha de S.Paulo em 10/03/2013)


Brasil: a hora da competitividade


Gleisi Hoffmann

A medida provisória 595, que altera regras de exploração dos portos, não trata de privatização por uma razão simples: a operação do sistema portuário no Brasil já é privada. O objetivo da medida é melhorar a competitividade do setor, levando em conta a necessidade de aumentar o desenvolvimento do país.

Não se deve analisar a medida de forma isolada. Na verdade, estamos em meio a uma nova trajetória de transformação, que implica investimentos públicos e privados em gargalos logísticos de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos.

Nossos produtos podem e devem custar menos. Assim como nossos portos e aeroportos podem e devem ser comparáveis aos melhores do mundo. Para isso, é necessário quebrar reservas de mercado que não se justificam no mercado global.

Superar as deficiências da estrutura logística e aumentar nossas exportações são tarefas essenciais para responder às dificuldades do presente e encarar com esperança os desafios do futuro.

Exemplo dessa necessidade ocorre com a produção de milho destinada ao mercado externo. No ano passado, exportamos 22 milhões de toneladas do produto. Conseguimos esse ótimo resultado porque os Estados Unidos tiveram dificuldades com a safra e alguns países, principalmente a China, buscaram milho no Brasil, mesmo pagando quase três vezes mais a tonelada movimentada no sistema portuário.

Neste ano, a safra dos norte-americanos deverá ser melhor e a grande compra de milho deve acontecer lá, mas estamos dispostos a lutar para reverter a situação. Afinal, a conquista de mercado para nossos produtos é questão de Estado.

A demanda por novas fronteiras produtivas se estabelecendo em regiões diferenciadas do Brasil exige que o governo tenha linhas estratégicas de orientação e prioridades. Não podemos deixar de dar suporte para nossa crescente e pujante produção agrícola, nossa produção mineral e industrial.

Hoje, a capacidade instalada dos portos organizados brasileiros é de cerca de 370 milhões de toneladas. Até 2015, quando se projeta movimentação de 373 milhões de toneladas, essa capacidade estará completamente esgotada.

Santos e Paranaguá já operam acima de suas capacidades, o que explica a demora nas operações de embarque e desembarque.

É nesse contexto que a medida provisória 595 faz todo o sentido. A autorização para que novos terminais portuários sejam instalados, feita de acordo com as regras constitucionais e as leis trabalhistas, é uma forma de atender a demanda da produção, provocar competição, reduzir custos e tentar garantir a melhoria nos serviços, em benefício de todos.

Para diminuir a burocracia, haverá a implantação da Comissão Nacional das Autoridades nos Portos (Conaportos), que integrará e disciplinará a atuação dos órgãos públicos. E, para maior movimentação com menor tarifa, reduzindo o custo dos operadores, será mudado o critério de outorga para arrendamento dos terminais do porto organizado.

Na ampliação da infraestrutura e na modernização da gestão portuária, o governo decidiu investir R$ 6,4 bilhões nos portos públicos nos próximos anos. Serão R$ 2,6 bilhões em acessos terrestres e R$ 3,8 bilhões em dragagens. Haverá mais empregos e todos os direitos dos trabalhadores estão preservados. Sem qualquer alteração na legislação trabalhista em vigor.

Os portos contribuíram para nosso desenvolvimento e podem contribuir ainda mais. Em quase 20 anos de vigência da atual Lei dos Portos, os terminais públicos e privados conviveram e ambos cresceram. Aliás, a convivência entre portos organizados e terminais de uso privado, além de normal, é necessária e deve continuar.

Ao definir, de forma democrática, os parâmetros de um novo sistema portuário para melhorar a logística por meio da competitividade, quebrando barreiras e reservas de mercado, o governo, além de agir de forma acertada, faz mais que o dever de casa.

Na verdade, o governo está fazendo a projeção do futuro e apostando em um novo salto de desenvolvimento, que, seguramente, estará ao alcance dos brasileiros com o apoio do Congresso. Não é por acaso que o Brasil é um dos poucos países do mundo onde a democracia e o pluralismo se realizam todos os dias.

Gleisi Hoffmann é  ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República
(texto originalmente publicado no jornal  Folha de S. Paulo em 10/03/13)